Jogo Sujo

Por que o Consórcio Bilhete Digital quer esconder seu verdadeiro sócio?

Há um passageiro oculto – ou nem tanto – na controversa disputa pelo sistema de bilhetagem eletrônica no município do Rio de Janeiro, um contrato da ordem de R$ 1,3 bilhão. O protagonista desse esconde-esconde societário é Wilson Borges Pereira Neto, híbrido de empresário e político – Ele concorreu como suplente na chapa do atual presidente da Alerj, Andre Ceciliano, candidato derrotado ao Senado. Por trás dos panos, Borges é o nome secreto que lidera o Consórcio Bilhete Digital, responsável direto pelas idas e vindas na polêmica concorrência realizada pela Prefeitura do Rio. Inicialmente desabilitado pela Comissão de Licitação, o consórcio voltou ao jogo por meio de uma liminar. O retorno à disputa pode ser atribuído, em parte, à influência do sócio não revelado. Borges não aparece à mesa, mas é a mão que joga as cartas do Consórcio Bilhete Digital.

O Consórcio Bilhete Digital é uma cebola societária, formado por uma série de camadas que têm como objetivo esconder a participação de Wilson Borges. É preciso descascar cada uma dessas peles para se chegar ao nome do empresário. O Consórcio é controlado pela RFC e pela Alto Tijuca Participações. O nome desta empresa já levanta ilações. Sonoramente, a razão social remete à Auto Viação Tijuca, tradicional companhia de mobilidade urbana do Rio. Parece até que os acionistas do Consórcio quiseram usar uma marca que lembrasse uma empresa do segmento de transportes, denotando proximidade entre a Bilhete Digital e o setor de transportes.

Descamando-se a Alto Tijuca Participações (http://cnpj.info/Alto-Tijuca-Participacoes), surgem como sócios a empresária Maria Alice de Oliveira Guedes e a Koge Rj Empreendimentos. Aos se esmiuçar o quadro social da Koge (https://cnpj.biz/43784199000107), chega-se ao primeiro vínculo entre o Consórcio Bilhete Digital e Wilson Borges. Entre os sócios da Koge Rj Empreendimentos, além da própria Maria Alice de Oliveira Guedes, estão Gabriel Saavedra Borges Pereira e Guilherme Jose Pereira, ambos parentes de Wilson Borges. Não é o único elo com o empresário. Na mesma consulta ao CNPJ, é verificar que a Koge está localizada na Avenida Ataulfo de Paiva 245, sala 903, no Leblon, Zona Sul do Rio. No mesmo prédio, na sala 901, está sediada a Sod Capital. Os sócios da Sod Capital são a Sod Controle, a Sod Participação e Gestão de Ativos e Wilson Pereira Borges IV, filho de Wilson Pereira Borges Neto. Coincidência? Não exatamente. As salas 901 e 903, assim como a 902, são contíguas. Há, inclusive, uma empresa, a Impacto Capital e Participações, que tem sua sede registrada nas três salas, o que configura se tratar, na prática, de um “único” imóvel (http://cnpj.info/Impacto-Capital-e-Participacoes-Ltda).

Um breve parêntese sobre Wilson Pereira Borges IV. O filho de Wilson Pereira Borges Neto é conhecido pela generosidade. Ao menos entre os amigos mais próximos. Em 2012, foi citado pelo jornal New York Post como o “gastador da noite”, durante a realização do festival de música eletrônica Ultra Music Festival, em Miami. Na ocasião, brindou os convidados do seu camarote particular – entre eles Paris Hilton e o DJ francês David Guetta – com 150 garrafas de Dom Pérignon Luminous. Segundo o jornal norte-americano, o mimo custou algo em torno de US$ 170 mil. Uma bagatela se comparada ao valor de US$ 1 milhão que o herdeiro de Wilson Pereira teria desembolsado, meses antes, ao longo de três badaladas noites Saint-Tropez, Capri e Croácia – também de acordo com o New York Post.

Feita essa rápida inflexão pelo jet set internacional, o fio da meada volta a terras cariocas. A Koge Rj Empreendimentos – como já mencionado sócia da Alto Tijuca, por sua vez, integrante do Consórcio Bilhete Digital – disponibiliza como contato Paulo Amaral, sob o e-mail pauloamaral@sodepar.com.br. O e-mail em questão não diz da missa à metade. O endereço eletrônico pertence à Sodepar Administrações e Participações. Esta, por sua vez, tem um único acionista, exatamente Wilson Pereira Borges Neto (https://cnpj.biz/39114756000105).

Ou seja: por mais que Wilson Pereira Borges Neto tenha tentado camuflar sua presença como acionista e líder do Bilhete Digital, há várias conexões que comprovam sua participação no Consórcio e, consequentemente, na rumorosa licitação da bilhetagem eletrônica no Rio.

Quem é Wilson Pereira Borges Neto?

Wilson Pereira Borges Neto é mesmo um empresário envolto em brumas. Pouco se sabe sobre suas atuais atividades. Filiado ao Partido Verde, declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 1.896.609,00. Curiosamente, a Sodepar Administrações e Participações LTDA, da qual consta como único acionista, está registrada com um capital social de R$ 8.575.259,00, como também pode ser verificado no já citado link (https://cnpj.biz/39114756000105). O início da trajetória empresarial de Borges foi marcado por estranhas alquimias. Químico por formação, ele era dono da Ourobrás, uma fundição de ouro localizada em Nilópolis – município, inclusive, onde recentemente declarou à Justiça Eleitoral ter oito imóveis. No início dos anos 80, mais precisamente 1983, teve seu nome mencionado em acusações de que sua empresa funcionava de forma clandestina e comprava ouro roubado. Posteriormente, Wilson Borges manteve um variado ecossistema de empresas, de produtora de cinema a uma fabricante de cosméticos e uma rede de farmácias. De fato, ao longo de sua trajetória, o empresário girou várias catracas em seus negócios, mas nada que lhe credencie como o homem mais adequado para tocar a bilhetagem eletrônica do Rio de Janeiro.

Ouro ilegal causa ao Rio evasão de Cr$ 20 bilhões (Jornal do Brasil, 28/10/1983)

A licitação da bilhetagem eletrônica

A concorrência do sistema de bilhetagem eletrônica do Rio, importante projeto da gestão de Eduardo Paes, tem sido marcada por guinadas bruscas. Vencedor da licitação, a o Consórcio Bilhete Digital é questionado pelas outras três empresas concorrentes. Todas contestam a experiência e a capacidade técnica do Consórcio. A Bilhete Digital ainda participou da licitação baseada em um documento inadequado expedido pelo Detro-RJ, órgão do Estado do Rio de Janeiro. O contrato entre o Consórcio e o Detro-RJ não tem qualquer relação com bilhetagem eletrônica. Ou seja: aos olhos dos concorrentes, o atestado de capacidade técnica pode atestar tudo, menos que a empresa tenha experiência prévia para assumir o sistema de bilhetagem do município do Rio.

O Consórcio Bilhete Digital apresentou a melhor oferta econômica, com outorga de R$ 110 milhões. Essa cifra ficou apenas R$ 2 milhões acima do lance feito pela segunda colocada, a Tacom. A Sonda Mobility, terceiro lugar na concorrência (com uma proposta de R$ 81 milhões), com recurso alegou que a Bilhete Digital não apresentou uma autodeclaração de veracidade das informações prestadas entre os documentos de habilitação.

A Prefeitura do Rio, então, desclassificou o Bilhete Digital. O Consórcio acionou a Justiça e obteve sua reintegração ao processo licitatório por meio de uma liminar do juiz André Pinto, da 16a Vara de Fazenda do TJ-RJ.

Redação

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