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Reinserção e Reconciliação: O 17º Encontro Nacional do PT e o Caminho para 2026

O 17º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) simbolicamente marcou a reinserção política da antiga liderança do partido, que foi foco de algumas das principais investigações de corrupção na história recente do Brasil, incluindo o escândalo do Mensalão, nos anos 2000, e a operação Lava-Jato, a partir de 2014.

No início de seu discurso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou e saudou nominalmente figuras centrais da trajetória do PT que enfrentaram condenações nos dois casos: o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-tesoureiro Delúbio Soares, o ex-secretário de Finanças João Vaccari Neto e o ex-presidente do partido José Genoino.

— Precisamos, daqui para frente, reparar os erros que cometemos. Se não reconhecermos os erros, podemos continuar cometendo-os. Estou feliz que o companheiro Delúbio esteja presente nesta plenária. Acredito que a volta de José Dirceu à direção nacional, assim como de Vaccari e Genoino, seja de extrema importância — afirmou Lula, recebendo aplausos de uma plateia que reunia lideranças históricas e novas gerações do partido.

Ao jornal O GLOBO, Delúbio e Dirceu reagiram com entusiasmo às declarações do presidente. Dirceu descreveu o gesto como um ato de justiça:

— A sensação é de quem nunca deixou a militância ou a vida partidária. Estou muito feliz. Lula hoje fez justiça não apenas a mim, mas também a Delúbio, Vaccari e Genoino. É importante fazer justiça a quem foi injustiçado — afirmou o ex-ministro, condenado pelo Mensalão e pela Lava-Jato, mas posteriormente teve suas penas anuladas por decisões do Supremo Tribunal Federal.

Delúbio também celebrou o reconhecimento:

— É muito importante esse gesto do presidente. Representa o resgate de uma política correta. Estou feliz por estar de volta.

Julgamentos e anulações

No escândalo do Mensalão, denunciado em 2005, o Supremo Tribunal Federal condenou dirigentes do PT por envolvimento em esquema de compra de apoio parlamentar durante o primeiro mandato de Lula. José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil, foi apontado como “chefe da organização criminosa” e teve seus direitos políticos cassados. José Genoino e Delúbio Soares também foram condenados por corrupção e formação de quadrilha. À época, o julgamento foi considerado um marco na história da Corte, mas anos depois passou a ser reavaliado por juristas e historiadores, que apontaram excessos e motivações políticas.

Na operação Lava-Jato, José Dirceu e João Vaccari Neto foram presos sob acusações de corrupção e lavagem de dinheiro em esquema de desvios na Petrobras. A operação foi inicialmente vista como um divisor de águas no combate à corrupção, mas posteriormente perdeu credibilidade devido à revelação de parcialidade, conluio entre acusação e juiz, além de irregularidades processuais. Decisões mais recentes do STF declararam a parcialidade do então juiz Sergio Moro e anularam diversas condenações, inclusive as de Lula, possibilitando sua candidatura e eleição em 2022.

Com as anulações, petistas passaram a defender uma “reparação histórica” às vítimas desses processos. O encontro em Brasília foi visto por muitos dirigentes como uma manifestação concreta desse movimento.

Para o próximo ano, Dirceu e Delúbio são considerados candidatos a deputado federal. Quando questionado se pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2026, Dirceu preferiu não se manifestar, afirmando:

— Meu foco agora é enfrentar o tarifaço. A eleição é só no próximo ano.

O evento em Brasília também foi uma oportunidade para o PT reafirmar sua identidade e buscar consolidar uma unidade em meio aos desafios eleitorais de 2026. Nesta manhã, tomou posse o novo presidente do partido, Edinho Silva.

Redação

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